O empoderamento feminino contra os padrões de beleza
Nos últimos anos, a obesidade vem sendo amplamente
discutida nas redes sociais, nas conversas em família e nos grupos de amigos.
Afinal, ser obeso é sinal de doença? Ser gordo é sinônimo de feiura? Esse tipo
de pensamento tomou força na década de 90 e início dos anos 2000, quando ser
magra tornou-se um objetivo das mulheres, graças a expansão da comunicação e do
corpo "ideal". Na década de 90, a obesidade passou a ser vista como
um mal a ser combatido pela medicina e o corpo magro começou a ser reconhecido
como sinônimo de beleza e saúde, hipótese que perdura até os dias atuais.
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| Foto: Nathalia Magalhães / Modelo: Vitória Lopes |
A ditadura da magreza trouxe consigo um preconceito contra
as pessoas gordas. Intitulado hoje de gordofobia ou lipofobia, o preconceito
contra obesos nasce justamente de atitudes onde o acusador inicia uma série de
argumentações e chacotas na tentativa de ridicularizar e causar mal-estar
naqueles que estão acima do peso.
De acordo com a psicóloga comportamental Márcia Simões, 37, formada pela Universidade Estadual Paulista, a gordofobia está
em todas as esferas da sociedade, desde a pessoa que chama alguém de “gorda” em
tom de xingamento até as marcas de roupa que só fazem calças até o tamanho 42,
passando também pelos assentos apertados nos ônibus e as cadeiras com braços
nos restaurantes.
Todos os dias, milhares de pessoas gordas passam por esses
e outros inúmeros constrangimentos simplesmente por não poderem agir
confortavelmente e naturalmente em situações corriqueiras.
Apesar das redes de pertencimento virtual serem, muitas
vezes, ferramentas utilizadas por aqueles que se escondem em perfis para
praticarem a gordofobia, ao mesmo tempo elas podem ser um instrumento essencial
para o empoderamento das mulheres gordas. A criação de páginas no facebook e
instagram são práticas cada vez mais comuns para compartilhar o cotidiano, bem
como para combater o preconceito da gordofobia, identificando usuários
gordofóbicos e encorajando as mulheres a aceitarem seu próprio corpo.
Um exemplo disso é o trabalho da fotógrafa e designer de moda Nathalia
Magalhães, 22, que faz ensaios fotográficos de mulheres gordas por meio do projeto
de empoderamento feminista Super Mulheres. Ao mostrar uma das fotos das mulheres participantes do
projeto, Nathalia ressaltou:
“Muitos não sabem o que fazer com essa imagem, e ficam
atônitos. Alguns amam, outros odeiam. Há todo tipo de sentimentos dentro de
todo o espectro. É realmente incrível ver tanta emoção vinda de uma imagem. E é
assim que recondicionamos nossos cérebros, vendo novas imagens, imagens
diferentes, para substituir as antigas, destacando as celulites, destacando as
olheiras, destacando cada pedacinho desse corpo, que faz parte dessa mulher,
das suas marcas de vida, de quem ela é. Isso é poesia. Esses pequenos detalhes
a fazem insubstituivelmente linda”.
Projeto Super Mulheres
O projeto Super Mulheres foi
criado pela fotógrafa Nathalia Magalhães para retratar por meio da fotografia
crua, sem photoshop, a beleza da mulher gorda. Além da fotografia, há relatos
de gordofobia e histórias de empoderamento das mulheres. O projeto tem como
objetivo principal o empoderamento feminino por meio da representatividade
gorda e o manifesto contra a gordofobia.
Facebook: Super Mulheres
Instagram:
@projetosupermulheres
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| Foto: Nathalia Magalhães/ Modelo: Vitória Lopes |
A medida que as discussões
sobre 'ser gorda' vão crescendo nas rodas de conversas reais e virtuais, o
empoderamento da mulher gorda também se consolida cada vez mais. Nos últimos
anos, além do crescimento da moda Plus Size no mundo, as pessoas gordas
encontraram na internet - nos blogs, coletivos virtuais de gordas e canais no
YouTube - uma forma de mostrarem sua força e expressarem seus sentimentos.
Vitória Lopes, 22, formada em design pela PUC-Rio, encontrou
o projeto Super Mulheres através do facebook e procurou a fotógrafa Nathalia
Magalhães porque queria fazer parte da experiência de se ver empoderada por
meio das fotos sem photoshop, além de poder inspirar outras mulheres.
"Com o projeto, eu
desenvolvi o meu amor próprio. E amor próprio é estar bem consigo mesma. É
construir uma força interna tão grande, capaz de te reerguer e mostrar o que
vale pra você. Muito disso vem do processo de autoconhecimento, saber
reconhecer o seu lugar no mundo e fazer dele, sua casa. Pra mim, nada me é tão
reconfortante que cuidar do meu corpo... Acabei descobrindo amores novos quando
resolvi zelar pela minha própria casa, fazer do meu corpo o que bem queria.
Hoje, meu corpo é minha fortaleza, constituída por esse amor próprio que eu
nunca achei que teria."
A mídia também entra como
contribuinte para com o preconceito da gordofobia. Ao associar magreza à vida
saudável, os meios de comunicação recorrem ao corpo magro como sinônimo de
perfeição. Algumas revistas como Means Health, Glamour e Boa Forma fazem,
frequentemente, matérias com mulheres magras e musculosas, e, dessa forma,
contribuem para que as pessoas que estão acima do peso se sintam obrigadas a
mudar seu estilo de vida para se encaixarem nos padrões de belezas impostos.
Esses canais comunicativos também estimulam o emagrecimento quando citam dicas
de dieta para emagrecer rapidamente e exercícios de academia visando a diminuição
de peso. Contra essa padronização estética que a mídia reforça dia após dia, a
psicóloga Márcia Simões questiona:
“Nós nos acostumamos a ver
um só tipo de corpo, nos ônibus, outdoors, capas de revistas. Mas o fato é que
até mesmo a menina na revista não se parece com a menina na revista. Se você
olhar revistas femininas dos últimos 30, 40, 50 anos, você poder ser perdoado
por pensar que existe apenas um tipo de mulher no mundo, e ela tem 1,80m de
altura, 17 anos, normalmente é loira de olhos azuis, tem pele que parece de
plástico e, na verdade, é uma alienígena, porque ela é criada em computador. E
as mulheres se comparam de forma consciente e inconsciente. E, se você está
sempre se comparando com algo que, na verdade, não existe, como pode se sentir
bem ao olhar no espelho ou quando olhar para si mesma? ”
O empoderamento é o melhor
mecanismo de tentar minimizar as consequências desse processo que traz sofrimento
e causa graves problemas psicológicos a muitas pessoas que estão fora do padrão
social, construído pelo apelo consumista e pautado em elementos que são
prejudiciais à saúde física e mental.
Vitória ainda acredita que as
mulheres são responsáveis por definir o que é a verdadeira beleza, por dizer
como é se sentir confortável na própria pele e como é ter uma imagem corporal
positiva, não as revistas.
“Começa com as pessoas
compartilhando suas histórias. Começa com as pessoas aliviando sua própria
vergonha. Começa com as pessoas realmente aceitando os outros da maneira que
eles são e, na verdade, não apenas os tolerando, ou apenas os aceitando, mas
realmente encontrando essa coisa sobre outro indivíduo que você vê como sendo
peculiar, ou diferente ou única, e apenas amá-los por isso. Veja-se nua.
Chame-se de bonita mesmo que não acredite. Finja que acredita até conseguir. Na
sua vida, haverá pessoas que tentarão lhe dizer que precisa mudar, mas não
mude. O propósito de sua vida não é ser um ornamento para ser olhado, mas sim
fazer e sentir e realizar e contribuir. ”
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| Foto: Nathalia Magalhães/ Modelo: Vitória Lopes |



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